1 de julho de 2012

Autotradução: parte tradução, parte autoria

Fazia tempo que eu queria escrever um artigo/reflexão que não fosse sobre legendagem. Este assunto já estava nos rascunhos há muito tempo, mas foi só quando li outras coisinhas por aí que decidi juntar tudo.

Você sabe o que é autotradução?

Eu ouvi falar nisso quando durante o mestrado (2003-2005), pois minha colega Maria Alice Antunes estava pesquisando esse tema para seu doutorado.

Autotradução é a tradução que alguém realiza da sua própria obra original. Quer dizer: é um autor que escreve um texto e decide, ele próprio, traduzir para outra língua.

A Maria Alice passou alguns anos investigando quais seriam as diferenças e os limites, ou as sobreposições, entre os papéis do autor e do tradutor. Quanto um autor traduz a própria obra, ele age mais como autor ou mais como tradutor? Há como perceber isso no texto? E quais seriam, exatamente, essas diferenças?

Além de muito estudo teórico e de levantar muitos outros casos de autotradução literária pelo mundo (entre os mais notórios, Vladimir Nabokov, Samuel Beckett e Milan Kundera traduziram suas próprias obras), Maria Alice abordou, como estudo de caso, as autotraduções que João Ubaldo Ribeiro fez para o inglês de dois romances seus, Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro. João Ubaldo morou muitos anos nos EUA e se considera falante bilíngue de inglês e português.

Durante meus dois anos no mestrado, eu adorei acompanhar a pesquisa dela e as trocas de e-mails com João Ubaldo, cujo humor variava bastante e que repetidas vezes disse que sofreu horrores para fazer essas traduções e que jamais faria isso de novo. Maria Alice fez uma análise comparativa dos romances traduzidos e ia fazendo a ele várias perguntas específicas, além de contar com outros depoimentos dados por ele, inclusive um artigo que ele escreveu para a ATA sobre a experiência.

Mas o melhor foi quando a Maria Alice me pediu para fazer a revisão do texto final de sua tese. Passei vários dias debruçada sobre todo esse estudo, que é interessantíssimo e muito revelador. O texto é muito bem elaborado e essa leitura me marcou bastante.

Não vou resumir um trabalho tão amplo e complexo. Basta dizer que nada é bem o que parece e os limites não são nada claros. E, em muitos casos, aquilo que o autor/tradutor declara quanto às suas intenções, sua postura consciente e seus procedimentos não bate com o que é observado no texto, em uma análise aprofundada.

A tese de doutorado da Maria Alice Antunes está disponível aqui.
A tese foi transformada em livro, que está aqui.
Há também um grande número de artigos menores que foram sendo publicados durante e após o doutorado, como este aqui, que faz um relato mais abrangente e histórico sobre autotradução, e este aqui, que traz um pedacinho do estudo de caso.

 Agora outros desdobramentos que me fizeram pensar ainda mais.

Recentemente, nem sei bem como, eu vim parar neste artigo de Olafur Gunnarsson, autor e tradutor islandês. Ele fala um pouco sobre a tradição literária islandesa, os gostos atuais dos leitores (que preferem mais literatura americana traduzida do que a sua própria, como costuma acontecer no Brasil também) e um pouco sobre a mentalidade da sociedade islandesa. Se você ler em inglês, leia! É um artiguinho delicioso.

O que mais me intrigou foi ele dizer que se sente mais temeroso e se autocensura ao escrever em islandês. É uma sociedade pequena, em que todo mundo se conhece, e parece que há gente que tem o hábito de vestir carapuças e achar que personagens e fatos relatados em histórias de ficção dizem respeito a si própria, e vai tirar satisfação com o autor.

Por isso, Gunnarsson se sente mais livre quando traduz do inglês para o islandês. Como o texto não é dele, ele não precisa se censurar ou ficar pensando se corre o risco de ofender alguém. Assim, se liberta e traduz com grande prazer. E eu tenho a impressão de sentir, nas entrelinhas, que ele se utiliza da sua prática e da sua posição de autor também nas traduções, não necessariamente sendo um tradutor submisso e temeroso com relação ao status do autor original.

E aí fica mais interessante ainda: como ele se sente mais livre adotando a identidade de tradutor, ele também escreve seus contos assim. Primeiro em inglês, que não é sua língua materna, e depois autotraduz o seu conto de volta para o islandês. Mesmo que o único texto publicado seja em islandês, ele se sente mais à vontade ao escrevê-lo fingindo que o texto veio de outro lugar.

Eu achei essa história absolutamente fascinante.

Para fechar, só mais um detalhe que encontrei e que corrobora o que Gunnarsson diz. Li o seguinte trecho num artigo do Open Culture, meu novo vício e o arqui-inimigo de quem tem prazo para entregar serviços, que comemorava o aniversário de Jack Kerouac:
He was born March 12, 1922 in Lowell, Massachusetts to French-Canadian immigrants. He grew up speaking the Quebec French dialect Joual, and didn’t learn English until he was six years old. “The reason I handle English words so easily,” Kerouac once said, “is because it is not my own language. I re-fashion it to fit French images.”
Quer dizer, é a mesma ideia: por sentir que o inglês não era totalmente a sua língua, ele não se sentia na obrigação de se prender muito aos seus rigores e limites. Achei fantástica a noção de que ele formava imagens em francês e depois moldava a língua inglesa para tentar descrevê-las.

Aliás, Gunnarsson traduziu Kerouac para o islandês e achou fácil e divertido.

Não sei exatamente que conclusões tirar disso, mas sinto uma enorme euforia ao ler esses depoimentos e experiências. Uma língua não é algo externo a nós, mas é algo que nos forma, que nos constrói, que molda a nossa forma de pensar e enxergar.

Eu me interesso também por estudos sobre bilinguismo, que têm insights interessantes sobre esse tipo de coisa. Ah, mas também gosto de neurolinguística... Enfim, eu precisaria ter umas três ou quatro vidas, de preferência correndo em paralelo, com as informações compartilhadas num Dropbox mental infinito.

Mas a questão é que sou bilíngue, aliás razoavelmente trilíngue, e passo praticamente todas as horas da minha vida com três línguas transitando pela minha cabeça, falando, lendo, escrevendo e transformando uma língua em outra. E, desde que comecei a ler e refletir sobre autotradução e sobre bilinguismo, esses insights (que às vezes nem são muito palpáveis) ficaram comigo e se fazem lembrar em diversos instantes do dia a dia. Tenho a impressão de que eu vivo me autotraduzindo, mesmo sem querer.

5 comentários:

Bete disse...

"...Enfim, eu precisaria ter umas três ou quatro vidas, de preferência correndo em paralelo, com as informações compartilhadas num Dropbox mental infinito."
Sounds familiar! ;-)
Adorei o artigo, Carol, e também a dica do Open Culture. Já foi pros favoritos!

Anônimo disse...

Tem também muito a ver com aquele fenômeno conhecido: a pessoa é exímia tradutora, mas vacila na hora de produzir um texto original, às vezes chegando ao ponto de não conseguir articular as ideias direito. Ao traduzir, inconscientemente assume a atitude do "lavo minhas mãos".
Texto traduzido, 10, texto escrito from the scratch, nem tanto...
Interessantíssimo.
Bom post!!
Marcos Zattar

José Nunes disse...

Muito interessante! Gostaria de acrescentar o artigo, escrito por Umberto Eco ("O nome da Rosa, dentre outras obras), que discute um pouco das questões tradutórias, sendo ele próprio escritor e tradutor. Aí vai:
http://www.themodernword.com/eco/eco_guardian94.html

Lorena Leandro disse...

Amei isso aqui, Carol! Também sempre me interessei pelos assuntos bilinguismo (principalmente por NÃO ser bilíngue e achar fantástico que alguém seja) e neurolinguística, mas infelizmente nunca pesquisei muito a fundo. Bacana ver você falando sobre essas e outras questões. Depois vou linkar lá no blog.

Concordia Institute disse...

Bonito, bem feito, agradavel, bem apresentado, gostei de seu blog, parabens querida colega!