29 de junho de 2013

Como falar da profissão

Penso que qualquer tradutor, principalmente os autônomos (a maioria de nós), já passou por algum aperto ao falar da própria profissão. Aquelas perguntas do tipo "Mas você também trabalha?", ter que ouvir um desfile de "pérolas" vergonhosas, etc.

Também é comum, nos meios de interação entre profissionais, a tradicional choradeira dos pobres coitados tradutores que ninguém reconhece, que só se sacrificam, que não têm horário, que não tem vida e tudo mais. Já devo ter presenciado cem vezes a situação em que alguém reclama por passar um feriado prolongado inteiro trabalhando até de madrugada, ao que outro responde que ele é que tem sorte por ter algum tipo de trabalho.

A vida não é fácil, e a vida de profissional autônomo não é para qualquer um. Aliás, a vida de assalariado também não é, porque aí tem toda uma outra série de dificuldades e motivos para choramingar.

Também não é trivial mudar a postura, própria ou alheia, com relação à profissão. Eu sempre aprendi, apliquei e senti na pele que a nossa imagem é a gente que constrói, que respeito é a gente que se dá, que valorização começa por nós mesmos. Mas "falar é fácil", dizem muitos.

Outra tendência é cada um de nós olhar para outro colega ou para outra profissão e achar que todos se dão bem, exceto nós. E aí também tem aquela situação recorrente: se um intérprete reclama de alguma coisa na profissão, chega um tradutor e diz: "Ah, é? Experimenta ser tradutor, para ver o que é bom." Aí chega o revisor: "Pois então vai ser revisor para ver o que é sofrer!" E então chega o professor de línguas: "Vocês reclamam de barriga cheia! Experimentem ser professores..." E aí vem a secretária, e assim sucessivamente.

Mas então não vamos falar de tradutores, intérpretes ou revisores, nem nada que tenha a ver com a nossa profissão. Vamos olhar para uma situação completamente diferente.

O vídeo a seguir caiu nas minhas mãos como parte das traduções que eu faço para a Royal Opera House. Foi exibido nos cinemas, no intervalo da transmissão da ópera "Nabucco", e relata o dia-a-dia do coro permanente da Royal Opera. Eu adorei, porque já cantei em coral e adoro canto coral. Mas, ao fazer essa tradução, tive uma série de revelações e uma epifania: É ISSO! É ASSIM que nós devíamos falar da nossa profissão!

Assista atentamente e depois continue lendo o que eu pensei quando traduzi esse vídeo.


Logo de cara, sabemos que um cantor de coral é um cantor profissional (nesse caso), mas não se destaca. Ele serve ao conjunto e cada componente tem um papel essencial, mas esse papel não inclui dar showzinhos particulares. Durante a apresentação, eles são praticamente "invisíveis" como indivíduos. Mas a valorização da profissão se dá por cumprirem esse objetivo e em outros momentos, como nesse vídeo, quando falam de si próprios e de seu trabalho.

Em 00:28, há um depoimento muito comum: "Isso é emprego de verdade?" Imagine quantas vezes eles não devem ouvir isso, assim como nós. Não estamos sós.

Em seguida, fica claro que, apesar de se apresentarem até tarde da noite, nem sempre têm a manhã livre, como deveriam. Quer dizer, não é aquele empreguinho com horário fixo, 8 horas por dia. Ainda assim, o cantor enfatiza a empolgação que é fazer aquilo todo dia.

Em 1:08, ele diz que eles preparam 4 ou 5 óperas ao mesmo tempo, em diversas línguas. Preciso enfatizar as semelhanças com os tradutores?

A partir de 1:50, são mostrados os ensaios de "Nabucco". Fica claro que eles passam muito tempo preparando uma única peça. A dedicação, o esmero, a atenção aos detalhes são absolutos, mesmo que o resultado final seja transitório e presenciado por poucos. Mas eles não estão reclamando disso. É justamente isso que torna seu trabalho tão especial.

2:16: o regente demanda muitíssimo deles, diz a cantora. E complementa: "Isso é ótimo!"

3:02: as cantoras falam de quanto texto e quantas informações devem reter na memória, mas por pouco tempo, para depois fazer outra coisa. Mentalmente, achei muito semelhante ao nosso trabalho de pesquisa para cada um dos diferentes projetos. Repare que elas descrevem a própria capacidade mental com orgulho, como algo especial.

3:34: o cantor fala da profissão, extremamente competitiva. A cantora relata que, quando ela se candidatou, eram 400 candidatos para 4 vagas. Sim, é um emprego fixo, mas fica claro que só os mais qualificados chegam lá. Há várias diferenças com os profissionais autônomos, mas convenhamos, entre os autônomos o objetivo não é apenas conseguir um novo cliente, mas principalmente retê-lo, ser o tradutor preferencial daquele cliente durante décadas, assim como esses cantores deixam claro: ninguém quer largar o osso, pois muita gente gostaria de estar no lugar deles. E, para se manter lá, é preciso ser impecável no trabalho.

No mesmo tema, em 4:20 a cantora resume o que, na minha opinião, é a chave da valorização da profissão: "Nós fomos escolhidos para estar aqui e nos esforçamos para chegar até onde estamos. E é por isso que este coro tem tamanha qualidade". Repare na circularidade: é um trabalho que exige demais e demanda os melhores, e é graças a eles, os melhores, que o resultado tem tanta qualidade. Fica o recado de que não é bico, não é para qualquer um. É difícil entrar, é difícil permanecer e, se o resultado é bom, é graças a nós. Percebeu que eles nem por um instante se preocupam com os cantores que não chegaram lá, ou com outros empregos piores? Isso não importa, o que importa é valorizar o seu emprego e assim, necessariamente, valorizar a si próprio.

4:30: a cantora fala dos horários estranhos de trabalho, principalmente à tarde e à noite. Fica claro que ela tem filhos e que não é sempre que está com eles durante o dia. Mas nada de xororô: "É brilhante!"

Em 4:45, todo o trecho do ensaio de 80 britânicos dirigidos por três italianos é hilário. Agora, veja bem: a mesma situação poderia ser pintada como caótica, inadmissível. Alguém poderia dizer que não foi contratado para fazer esse tipo de palhaçada. Mas não: estão todos no mesmo barco, dentro do possível se divertem e seguem em frente. Às vezes é um caos, mas o importante é que no fim dê tudo certo.

A partir de 5:45, quando mostram o camarim, achei interessante ver que também faz parte do trabalho dos cantores passar bastante tempo sem cantar. Ainda assim, é necessário. Eu às vezes passo a maior parte do dia preparando orçamentos ou fazendo transações bancárias ou esperando algo acontecer. Mas eles apresentam todo aquele universo como algo bom, entretido, em que eles se integram, se conhecem, se preparam. Achei muito interessante ver que mesmo essa situação é retratada como algo positivo.

Em 6:41, temos uma boa noção da intensidade de trabalho e da pressão sobre esses profissionais, que trabalham em tantas obras simultâneas que às vezes nem se lembram qual é a daquela noite. Dá para sentir a tensão dos minutos logo antes da hora H. Há os últimos detalhes, o figurino, o palco... Mas, novamente, nada de reclamações. Tem que cantar vestindo armadura? Vamos nessa.

7:35: agora é o regente que elogia a dedicação dos cantores. Aqui eu pensei que bom, é como em todo "making of" de qualquer produção, todo mundo acha tudo lindo e maravilhoso. Puro marketing. Mas bom, quando nós falamos bem de nossos clientes, quando relatamos para amigos os projetos em que estamos envolvidos, isso também não é marketing? É marketing do nosso próprio trabalho. Quem é que vai fazer marketing para nós, senão nós? A empolgação e emoção com que cada um desses profissionais fala de cada música, de cada obra e do próprio trabalho é contagiante. Há problemas? É claro que há! Mas não são os problemas que eles vão sair divulgando por aí.

E, bem ao fim do vídeo, é enfatizada a dedicação deles para com o público, que é quem realmente importa. Aqueles instantes podem transformar muitas pessoas. Você é um anônimo no meio de 80 e seu trabalho é sacrificado, mas tem um poder transformador.

É assim que eu gostaria de falar e ver falarem da minha profissão. Já comecei.

6 comentários:

Anônimo disse...

Olá, Carolina. Muito bom ler este texto. Sou Andréa, hoje começarei a fazer um teste de tradução. Após dar aulas de espanhol por muitos anos, terminar uma pós em Tradução de Espanhol, estou aqui pensando nas minhas chances de entrar para o mercado, e se faço uma boa escolha ao mudar de direção, uma vez que vejo tantos profissionais se queixarem e relatarem os problemas que enfrentam diariamente. Eu que nem havia começado, já estava a ponto de desistir. Mas vou tentar, vou arriscar, quem sabe não acontece? Quem sabe não é para ser? Parabéns pelo texto e pelo blog, não é a primeira vez que venho aqui, em busca de informações e inspirações. Abraços!

Shiro disse...

Nossa, como ler isso foi estimulante. Estou me preparando para ser uma tradutora e sempre que procuro algo vejo o pessoal falando em como é dificil a profissão e tudo mais e por isso havia desistido de lutar e fiquei dois anos sem me dedicar. Após ver que só seria feliz se eu fizesse o que gostasse percebi que nada poderia me parar e que eu poderia lidar com as dificuldades.

Carolina Alfaro de Carvalho disse...

Andréa e Shiro,

Obrigada pelo comentários e sucesso na carreira!

Luiz Alves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luiz Alves disse...

Quando me perguntam da minha profissão (legendista), difícil é me fazer parar de falar! Começo a devanear sobre como é precioso ter acesso a um conhecimento, uma informação, e poder disponibilizá-la a outros. O tradutor é um arauto, um construtor de pontes, um artista. As dificuldades não são nada quando se tem isso em mente. Adaptando o que disse o pianista Jean-Philippe Rio-Py neste video (http://goo.gl/zXpRCm), pra mim tradução não é nem uma paixão, é uma necessidade. Eu preciso traduzir.

Depois de um discurso assim, ninguém tem coragem de achar que me falta alguma coisa :P

PS: também já fiz parte de coral, e é um ensinamento pra vida, essa noção de ser parte de um todo e se sentir satisfeito simplesmente por estar acontecendo.

Globalrede web design e tecnologias de internet disse...

Chamo-me Helena Marcelo e sou tradutora hà muitos anos, é uma profissão difícil, mas para quem ama o que faz é sempre possível continuar. Não podemos desistir, nem baixar os braços, ás dificuldades da mesma.
Vejam o meu exemplo após tantos anos de profissão para fazer face à inúmera concorrência resolvi agora arrancar com o meu projecto também online, ainda falta alguma informação mas acho que está muito bom e acima de tudo credivel.
www.traducoes-hm.com/